Hackatão: É só o começo


Quando os primeiros hackers surgiram, na década de 1950 no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA, eles já sabiam que o trabalho descentralizado e colaborativo é a melhor maneira de desbravar um sistema. E entenderam que seria melhor ainda se o processo fosse feito em imersão, com senso de urgência e ajuda mútua para resolver problemas. Um programa que demoraria meses para ser desenvolvido de maneira tradicional era feito em poucas horas.


E era difícil, para quem via de fora, entender o que é que aquele pessoal todo fazia com os olhos grudados ao computador, madrugadas a fio. Assim como ainda hoje parece difícil entender o que leva dezenas de pessoas a dedicarem uma noite de sexta-feira e um sábado inteiro para os códigos – sem ganhar nada.


Mas os primeiros hackers tinham razão. Antes mesmo de o Hackatão começar (o início estava marcado para a meia-noite de sábado), já havia participantes em ação. O evento aconteceu no mesmo dia em que o pai da computação Alan Turing completaria 100 anos. “É um prazer abrir as portas desta casa centenária para algo tão moderno”, disse Cláudia Belfort, editora-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado, na abertura oficial. Depois dela, Daniela Bezerra da Silva e Pedro Markun, do Transparência Hacker e parceiros na realização do evento, começaram a propor os temas. Em seguida, os grupos se formaram quase que instantaneamente em torno dos interesses comuns: estudar dados da cidade de São Paulo, de educação, de saúde, prestação de contas e fazer o acompanhamento dos parlamentares.


Todo o contato feito antes via lista de e-mail tornou-se pessoal – os grupos se organizaram em mesas e começaram a bolar estratégias para pôr ideias em prática. Jornalistas e programadores eram a maioria no encontro, que ainda tinha uma boa parcela de designers. E todos os profissionais aprendem uns com os outros. A comunicação era facilitada por meios online. “Mas vamos olhar uns nos olhos dos outros”, dizia Daniela.


Quem tinha uma ideia a colocava no mural. Quem oferecia mão de obra colocava seu nome, sua habilidade e um contato num post-it ao lado. E, assim, ideias ganharam executores.


As horas passavam pela madrugada, mas a energia era a mesma. O entusiasmo de criar algo novo – e desbravar um território inexplorado – funciona. O território a ser descoberto no primeiro Hackatão eram as imensas bases de dados públicos (escolhidas pelos participantes, com base em seus projetos) e as possibilidades que elas trazem.

A criação colaborativa exerce uma espécie de empolgação coletiva, algo que só se vê em maratonas deste tipo. Há um desafio, um número de horas e as habilidades de cada um. Combinar essas variáveis é realmente um desafio bastante divertido.


Pela manhã houve a primeira troca de turno. Uns sucumbiram, outros chegaram com novo gás. E os problemas ficaram mais claros: o País ainda está engatinhando em relação ao acesso à informação. As bases de dados são um problema sério – o governo ainda está aprendendo a se abrir para os hackers.


Várias bases de dados escolhidas eram ilegíveis por máquinas. Scripts foram criados para transformar caracteres ilegíveis em informação capaz de ser trabalhada. Nas paredes, páginas de edições antigas do Estado mostravam como os hackers deixaram de ser retratados no passado como criminosos virtuais e aos poucos integram-se à sociedade – e o melhor exemplo era o fato de uma maratona desta natureza ter sido sediada em um dos jornais mais tradicionais do País.


Jornalistas aprenderam um pouco de programação. Programadores tiveram de resolver questões de design. E designers tiveram de lidar com a abordagem jornalística, em um trabalho coletivo em que só podem sair bons frutos. É impossível medir a quantidade de possibilidades criadas durante as quase 24 horas de maratona. A maior parte do tempo dos outros grupos foi dedicada à transformação e leitura de dados brutos, um trabalho que abre margem para infinitas novas possibilidades. A maratona acabou, mas o trabalho está só no começo. Não somente por causa dos projetos, que terão continuidade remotamente, mas também pelas ideias que ainda serão executadas em futuros Hackatões.

 

Fonte: Estadão - (24/06/2012)

Foto: Daniel Teixeira

Outras notícias